Princípio da boa-fé: como ele se aplica à gestão pública?

Martelo e balança da justiça, em foto que ilustra post sobre princípio da boa-fé. Reprodução: poungsaed_eco/Envato.
Entenda a aplicação do princípio da boa-fé na administração pública e como ele promove uma gestão ética e confiável.

O princípio da boa-fé orienta as práticas administrativas para que sejam conduzidas de maneira justa, transparente e comprometida com o interesse público. 

Na administração pública, representa o dever de agir de forma íntegra e coerente, estabelecendo uma relação de confiança entre o Estado e a sociedade. Esse princípio atua como uma linha de conduta que previne abusos, assegura respeito aos direitos dos cidadãos e facilita a transparência em decisões e interações públicas. 

Dessa forma, a boa-fé contribui para uma gestão mais equilibrada, refletindo o compromisso da administração com a eficiência e a justiça. Siga com a sua leitura para entender mais sobre o assunto.

O que é o princípio da boa-fé?

O princípio da boa-fé é uma diretriz ética e jurídica que exige das partes envolvidas em qualquer relação, especialmente no âmbito público, uma postura honesta, transparente e comprometida com a integridade dos atos praticados. 

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Mais do que um dever de conduta, a boa-fé envolve o compromisso de agir com lealdade e sinceridade, assegurando que as interações sejam justas e baseadas na confiança mútua. 

Esse princípio pode ser dividido em dois aspectos principais: a boa-fé subjetiva e a boa-fé objetiva. A boa-fé subjetiva refere-se à intenção interna de agir corretamente, ou seja, à crença individual de que as ações são justas e legítimas. 

A boa-fé objetiva, por sua vez,  se relaciona com um padrão externo de conduta que define o comportamento esperado em uma determinada situação. 

No contexto público, a boa-fé objetiva exige que o gestor atue não apenas com retidão, mas de acordo com normas de transparência e respeito ao interesse coletivo, sendo fiscalizado pelo cumprimento da legalidade e de princípios éticos que vão além de suas intenções pessoais.

Qual a origem do princípio da boa-fé?

A origem do princípio da boa-fé remonta ao direito romano, onde já era reconhecido como um elemento essencial nas relações jurídicas e contratuais. 

No contexto romano, a boa-fé (bona fides) era um princípio ético e jurídico que assegurava a integridade e o respeito mútuo entre as partes em uma transação, sendo invocada como um critério para a resolução de litígios e para a interpretação dos acordos. 

Essa concepção de boa-fé tinha por base a ideia de que, em qualquer relação, as partes deveriam atuar de maneira justa e honesta, respeitando a confiança depositada entre si e evitando práticas enganosas ou prejudiciais

Nos tribunais romanos, a boa-fé era aplicada pelos juízes como um padrão de conduta que transcendia a letra da lei, buscando atender ao que era considerado justo e equitativo em cada caso concreto.

No direito canônico medieval, a boa-fé passou a ser associada a valores cristãos de honestidade e lealdade, reforçando seu caráter ético e moral na interpretação dos contratos e na resolução de conflitos. 

Já nos sistemas de common law e civil law, que surgiram e se consolidaram na Europa, a boa-fé foi incorporada aos ordenamentos jurídicos como um princípio fundamental, mas com nuances específicas em cada um deles. 

Na tradição de common law, por exemplo, a boa-fé foi inicialmente tratada de maneira mais restrita, aplicando-se a situações específicas, como em contratos fiduciários e nas obrigações de fair dealing (tratamento justo). 

No sistema de civil law, ao qual o Brasil se filia, a boa-fé adquiriu uma amplitude maior, sendo considerada um princípio geral do direito, com ampla aplicabilidade em todas as relações contratuais.

Qual a relação entre o princípio da boa-fé e o Código Civil?

No Código Civil brasileiro, o princípio da boa-fé é estabelecido como uma cláusula geral, sendo essencial para a interpretação e execução dos contratos. 

Esse princípio se manifesta de duas formas, as já mencionadas boa-fé subjetiva e boa-fé objetiva. 

Esses conceitos, embora sejam aplicados inicialmente ao direito privado, influenciam o direito público ao exigir que o Estado respeite essas normas em suas relações com os cidadãos. 

É, portanto, mais um freio ao arbítrio e ao abuso de poder, na medida em que orienta as ações de gestores ao fiel cumprimento de seus deveres funcionais.

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Como o princípio da boa-fé se aplica à gestão pública?

A aplicação do princípio da boa-fé na administração pública é uma extensão dos valores que ele representa no direito civil, especialmente em termos de transparência, responsabilidade e respeito pelo interesse coletivo. 

Ao aplicar esse princípio, os gestores públicos devem garantir a legalidade e a eficiência das ações administrativas, além de evitar qualquer prática que possa ser interpretada como arbitrária ou abusiva.

Transparência nas relações com fornecedores e cidadãos 

A boa-fé impõe ao gestor público o dever de agir com clareza e transparência em suas interações, permitindo que fornecedores e cidadãos compreendam os processos e tomem decisões informadas.

Compromisso com a legalidade e eficiência

Agir com boa-fé exige o compromisso com a legalidade e a eficiência, assegurando que os recursos públicos sejam utilizados de forma responsável e orientada para resultados. 

Esse compromisso visa promover a confiança na administração e combater o desperdício ou uso inadequado de recursos.

Evitar abuso de poder e práticas arbitrárias

A aplicação da boa-fé também busca limitar o poder discricionário do gestor público, prevenindo decisões arbitrárias ou abusivas.

Assim, qualquer decisão tomada deve ser bem fundamentada e atender ao interesse público, sem beneficiar indevidamente qualquer parte ou satisfazer qualquer interesse ilegítimo.

Como os gestores públicos devem aplicar o princípio da boa-fé?

Para assegurar que a boa-fé seja efetivamente praticada na administração pública, é imprescindível que os gestores sigam práticas que promovam justiça e imparcialidade, respeitando o interesse público e a legislação vigente.

Tomada de decisões imparciais e baseadas em fatos

Atos de gestão devem ser fundamentados em evidências e balizados pelo interesse coletivo, evitando quaisquer influências pessoais ou políticas que possam comprometer a imparcialidade.

Respeito aos direitos dos cidadãos e à legislação vigente

A boa-fé exige que os gestores observem rigorosamente os direitos dos cidadãos, respeitando as leis e regulamentos aplicáveis. Esse respeito cria um ambiente de segurança jurídica e estabilidade nas relações entre o poder público e a sociedade.

Estabelecimento de políticas públicas justas e equitativas 

Exige a formulação de políticas públicas que atendam de maneira equitativa às necessidades da população, sem privilegiar grupos específicos. 

Isso implica planejar e implementar ações que considerem o bem comum e promovam o acesso justo aos recursos e serviços públicos.

Comunicação clara e honesta com a população

A boa-fé também se reflete na qualidade da comunicação com a sociedade. O gestor público deve prezar pela clareza e pela honestidade, evitando informações enganosas ou ambiguidades. 

A boa comunicação fortalece a confiança da população na administração e facilita a participação dos cidadãos nos processos administrativos.

Conclusão

Ao adotar o princípio da boa-fé, a administração pública se torna mais justa e eficiente, contribuindo para o fortalecimento da confiança pública nas instituições. 

Essa confiança é fundamental para a participação cívica e para a construção de um ambiente democrático onde o poder público e a sociedade colaboram para alcançar objetivos coletivos. 

Em um cenário onde a boa-fé é uma prática concreta, a gestão pública consolida sua legitimidade e atua como um verdadeiro representante dos interesses da população, promovendo políticas que refletem os valores de integridade e responsabilidade.

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