A desinformação é um fenômeno que tem crescido de forma alarmante, especialmente em períodos eleitorais. Ela consiste na disseminação deliberada de informações falsas ou enganosas, visando manipular a opinião pública ou desacreditar indivíduos e instituições.
Este problema se tornou uma das principais preocupações para as campanhas eleitorais e para a democracia como um todo. Neste texto, vamos explicar como ela funciona na prática, seus riscos e as medidas tomadas para combatê-la.
O que é a desinformação?
Desinformação é a difusão deliberada de informações falsas, distorcidas ou fora de contexto com o objetivo de manipular a opinião pública, causar danos a indivíduos ou instituições e obter vantagens políticas ou financeiras.
Em um mundo cada vez mais digital, a desinformação encontrou um terreno fértil nas redes sociais, onde pode se espalhar rapidamente, alcançando grandes audiências com facilidade.
Esse cenário de excesso e velocidade na circulação de conteúdos, verdadeiros ou não, é chamado por especialistas de infodemia — um dos motivos que tornam ainda mais difícil separar fato de boato.
A desinformação não é apenas um produto da era digital; ela tem sido utilizada ao longo da história como uma ferramenta de guerra psicológica e política. No entanto, a internet e as mídias sociais amplificaram seu alcance e impacto, tornando-a uma questão de segurança nacional e democrática.
Tipos de conteúdo falso
Podemos dividir os conteúdos falsos em três categorias:
- Desinformação: conteúdo feito intencionalmente para enganar ou prejudicar;
- Informação errada (misinformation): conteúdo incorreto divulgado por equívoco, sem a intenção de causar danos;
- Má-informação (mal-information): informação verdadeira utilizada fora de contexto, com a intenção de causar dano (exemplo: vazamento de dados pessoais).
O que diferencia essas três categorias, na prática, não é o conteúdo em si, mas a intenção de quem o compartilha: enquanto a desinformação busca deliberadamente enganar ou causar dano, a informação errada costuma ser repassada por quem também acredita nela, sem intenção de prejudicar terceiros.
Como ela funciona na prática?
A desinformação opera através de várias formas, incluindo notícias falsas (fake news), deepfakes e outros conteúdos enganosos. Notícias falsas são artigos e relatos que imitam o jornalismo legítimo, mas contêm informações fabricadas ou distorcidas.
Deepfakes, por outro lado, são vídeos e áudios manipulados com o uso de inteligência artificial, criando representações falsas de pessoas dizendo ou fazendo coisas que nunca ocorreram.
Essas técnicas são especialmente perigosas durante as eleições, pois podem ser usadas para difamar candidatos, influenciar a opinião pública ou até mesmo incitar a violência.
A velocidade com que essas falsificações podem se espalhar nas redes sociais torna difícil para o público distinguir entre o que é real e o que é falso, prejudicando a capacidade dos eleitores de tomar decisões informadas.
Os riscos da desinformação para a democracia
A democracia se baseia na premissa de que os cidadãos têm acesso a informações precisas e confiáveis para tomar decisões eleitorais informadas. A desinformação mina essa base, criando um ambiente onde a verdade é relativa e a confiança nas instituições democráticas é erodida. Isso pode levar a uma polarização política extrema, desencorajar a participação eleitoral e até mesmo incitar a violência.
Além disso, a desinformação pode ter um impacto direto nos resultados das eleições, distorcendo a percepção pública dos candidatos e de suas plataformas. Isso representa uma ameaça direta à integridade do processo eleitoral, onde a legitimidade dos eleitos pode ser questionada, resultando em instabilidade política e social.

Medidas tomadas pelo TSE
Nos últimos anos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem promovido alterações significativas na Resolução nº 23.610/2019, que trata da propaganda eleitoral, incluindo disposições específicas sobre o uso de inteligência artificial (IA).
As novidades mais recentes foram incorporadas por meio da Resolução nº 23.755/2026, aprovada pelo TSE em março de 2026, que passou a valer já para o pleito deste ano.
Estas são as principais novidades para as eleições gerais de 2026:
- Rotulagem de conteúdo com IA ampliada: passou a abranger também “tecnologia equivalente” à inteligência artificial, não apenas IA propriamente dita;
- Veto a deepfakes na reta final da eleição: proíbe publicação, republicação e impulsionamento pago de conteúdo sintético com imagem, voz ou manifestação de candidato ou pessoa pública nas 72 horas antes até 24 horas depois do fim da votação, mesmo que rotulado;
- Inversão do ônus da prova: permite ao juiz inverter o ônus da prova em representações sobre uso indevido de IA quando for tecnicamente difícil comprovar a manipulação;
- Responsabilidade solidária das plataformas ampliada: provedores tornam-se solidariamente responsáveis por não remover conteúdo idêntico a outro já derrubado pela Justiça Eleitoral e por casos de violência política contra a mulher;
- Repositório de decisões consultivo: juízes eleitorais devem consultar o repositório de decisões colegiadas do TSE ao exercer o poder de polícia sobre desinformação;
- Parcerias com perícia especializada: tribunais eleitorais podem firmar acordos com universidades e órgãos especializados em perícia de ilícitos digitais e IA;
- Transparência no impulsionamento pago: plataformas devem disponibilizar campo específico para declarar o uso de IA ou tecnologia equivalente em conteúdo impulsionado;
- Canal de denúncia obrigatório: provedores de aplicação devem implementar solução específica para candidatos, partidos, federações e coligações denunciarem violações.
Uma das medidas mais relevantes adotadas pelo TSE ainda em 2024 foi a proibição do uso de deepfakes durante a propaganda eleitoral. Além disso, a Resolução estabelece a obrigação de que qualquer propaganda eleitoral que faça uso de inteligência artificial inclua um aviso claro sobre essa utilização, regra que visa promover a transparência e garantir que os eleitores estejam cientes quando estão interagindo com conteúdos gerados ou manipulados por algoritmos.
Para fortalecer ainda mais o combate à desinformação, a Resolução prevê a responsabilização das grandes empresas de tecnologia que não retirarem imediatamente do ar conteúdos que incentivem a desinformação, o discurso de ódio ou atos antidemocráticos, entre outros conteúdos prejudiciais à democracia e aos direitos humanos.
O artigo 9º- C proíbe a utilização de conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos notoriamente inverídicos ou descontextualizados, sob pena de caracterizar abuso de utilização dos meios de comunicação, podendo acarretar a cassação do registro ou do mandato do candidato.
É importante destacar que, em 2019, o TSE criou o Programa de Enfrentamento à Desinformação, visando reduzir os efeitos nocivos da desinformação durante as eleições. Desde 2021, o programa passou a ser uma ação permanente do Tribunal, e não mais restrita a períodos eleitorais.
Outra ação é o Programa de Combate à Desinformação, do Supremo Tribunal Federal. Em 2024, YouTube, Google, Meta, TikTok, Microsoft e Kwai firmaram acordo de adesão ao Programa, comprometendo-se a apoiar ações educativas e de conscientização contra os efeitos da desinformação sobre direitos e garantias constitucionais.
Como identificar a desinformação?
Para se proteger e evitar a propagação de conteúdos falsos, especialistas recomendam:
- Suspeitar de urgência e sensacionalismo: títulos alarmistas, escritos em caixa alta ou construídos para provocar forte reação emocional costumam ser sinal de manipulação, não de informação confiável. Antes de compartilhar, vale respirar e questionar por que aquele conteúdo foi feito para causar impacto imediato;
- Verificar a fonte: confira se o veículo tem histórico de credibilidade e checagem editorial, e busque a mesma informação em outros portais jornalísticos reconhecidos. Se nenhuma fonte séria noticiou o fato, é motivo para desconfiança;
- Checar imagens e vídeos: ferramentas de inteligência artificial tornaram a criação de deepfakes cada vez mais acessível. Observe detalhes como distorções físicas, descontinuidades no fundo da cena e inconsistências na iluminação, sombras ou áudio, sinais frequentes de manipulação sintética;
- Consultar agências de checagem de fatos: iniciativas como Aos Fatos, Lupa e o próprio Senado Verifica analisam boatos em circulação e publicam verificações detalhadas, sendo um bom ponto de partida antes de repassar uma informação duvidosa;
- Desconfiar de perfis anônimos ou recém-criados: contas sem histórico, sem identificação clara ou criadas há pouco tempo são frequentemente usadas para disseminar desinformação em massa, especialmente durante eventos de grande repercussão.
Qual é o cuidado que as campanhas devem tomar?
Para quem irá se candidatar à eleição ou reeleição, é fundamental adotar uma postura proativa contra a desinformação. Esses são os principais cuidados que as campanhas devem tomar:
- Monitorar a própria imagem nas redes: acompanhar menções e conteúdos relacionados à candidatura permite identificar rapidamente boatos em circulação e agir antes que ganhem grande alcance;
- Não compartilhar nem alimentar notícias falsas: candidatos e equipes de campanha devem evitar disseminar conteúdos não verificados, mesmo que pareçam favoráveis à própria candidatura no curto prazo;
- Corrigir ativamente desinformações: quando surgirem boatos ou informações falsas sobre a candidatura, é importante agir rapidamente para esclarecer os fatos, em vez de ignorar ou deixar que se espalhem sem resposta;
- Manter canais de comunicação claros e confiáveis: estabelecer meios oficiais e transparentes de contato com o eleitorado ajuda a reduzir espaço para boatos e fortalece a credibilidade da campanha;
- Investir em educação digital para o eleitorado: ensinar os eleitores a identificar e verificar informações antes de compartilhá-las contribui para um ambiente informativo mais saudável;
- Firmar parcerias com plataformas e organizações de fact-checking: colaborar com iniciativas de fact-checking — que contam com a participação cívica em suas checagens — e com as próprias redes sociais é uma estratégia eficaz para conter a disseminação de informações falsas;
- Capacitar a equipe de campanha: treinar assessores e voluntários para reconhecer sinais de desinformação e adotar um protocolo de resposta evita que erros ou informações não checadas sejam repassados por engano em nome do candidato.
Conclusão
A desinformação é uma ameaça significativa às eleições e à democracia como um todo. Ela não apenas distorce a verdade, mas também mina a confiança nas instituições democráticas e compromete a integridade do processo eleitoral.
Para candidatos, é vital adotar uma abordagem proativa e responsável, promovendo a veracidade e a transparência. Combatendo a desinformação, podemos assegurar eleições mais justas e democráticas, preservando a essência de nossas instituições democráticas.
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Artigo atualizado no dia 17/07/2026










