A prestação de serviços públicos no Brasil passou por mudanças relevantes a partir da década de 1990, especialmente com a ampliação da participação do setor privado em atividades antes executadas exclusivamente pelo Estado.
A Lei de Concessões surgiu nesse cenário como um marco para disciplinar essa participação.
Para as empresas prestadoras de serviço, como é o caso das companhias de saneamento, compreender o funcionamento da Lei de Concessões, suas atualizações ao longo do tempo e os impactos que ela gera no setor integra o processo de adaptação a um ambiente regulatório mais estruturado.
A legislação se conecta diretamente à expansão dos serviços, à segurança jurídica dos contratos e à relação entre poder concedente e concessionárias. Portanto, continue a leitura e saiba os impactos para as empresas de saneamento e os contratos públicos.
O que é a Lei de Concessões?
A Lei de Concessões, instituída pela Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, é o marco legal que define as regras para a delegação da prestação de serviços públicos à iniciativa privada, mediante licitação e contrato, por prazo determinado e sob fiscalização do poder público.
Ela estabelece direitos e deveres do concedente e da concessionária, critérios de remuneração, formas de extinção contratual e mecanismos de controle, buscando garantir a continuidade e a qualidade do serviço, bem como o atendimento ao interesse coletivo.
Principais aspectos da Lei de Concessões
Após compreender o conceito, é importante observar os pontos centrais que estruturam a Lei de Concessões e orientam sua aplicação prática.
Entre os principais aspectos, destacam-se:
- obrigatoriedade de licitação para escolha da concessionária, assegurando isonomia e transparência no processo;
- definição clara dos direitos e deveres das partes envolvidas no contrato;
- estabelecimento de prazo determinado para a concessão, com regras para prorrogação e encerramento;
- previsão de mecanismos de fiscalização e controle pelo poder concedente;
- garantia da continuidade do serviço público, mesmo em situações de intervenção ou extinção contratual;
- regras para revisão e reajuste tarifário, respeitando o equilíbrio econômico-financeiro do contrato.
Esses elementos formam a base dos contratos de concessão e orientam sua execução ao longo do tempo.
O que mudou desde 1995 no regime de concessões?
Desde a publicação da Lei nº 8.987/1995, o regime de concessões passou por ajustes e complementações legais, acompanhando a evolução do papel do Estado e das demandas por serviços públicos.
A ampliação do uso de concessões em setores como saneamento, transporte e energia trouxe a necessidade de maior detalhamento contratual, fortalecimento das agências reguladoras e integração com outras normas.
Essas mudanças não substituíram a Lei de Concessões, mas passaram a dialogar com ela, formando um arcabouço jurídico mais amplo.
A relação da Lei de Concessões com a Lei nº 11.079/2004
Um dos principais avanços foi a criação da Lei nº 11.079/2004, que instituiu as Parcerias Público-Privadas (PPPs). Essa legislação complementa a Lei de Concessões ao prever modelos contratuais específicos, como a concessão patrocinada e a concessão administrativa.
Enquanto a Lei nº 8.987/1995 trata da concessão comum, remunerada principalmente por tarifas pagas pelos usuários, a Lei de PPPs permite a combinação de tarifas com contraprestações do poder público.
Essa integração ampliou as possibilidades de investimento em setores com maior necessidade de aporte inicial, como infraestrutura e saneamento, reforçando o uso das parcerias público-privadas como alternativa aos modelos tradicionais.
Outras atualizações legais
Além das PPPs, outras normas impactaram o regime de concessões. No setor de saneamento, o destaque é a Lei nº 14.026/2020, que atualizou o marco legal do saneamento básico.
Essa lei promoveu alterações na regulação, introduziu incentivos à regionalização dos serviços e ampliou as possibilidades de concessões e privatizações, sempre em diálogo com a Lei de Concessões.
Essas atualizações contribuíram para um ambiente regulatório mais integrado, alinhado ao marco do saneamento.

Como funciona uma concessão de saneamento na prática?
Após entender a evolução legal, é importante observar como uma concessão de saneamento ocorre no dia a dia.
O processo começa com o planejamento do poder concedente, que define o objeto da concessão, as metas de atendimento, os investimentos previstos e o prazo contratual.
Em seguida, é realizada a licitação, na qual empresas interessadas apresentam propostas conforme os critérios estabelecidos no edital. A empresa vencedora assume a prestação do serviço, passando a operar sistemas de abastecimento de água, de esgotamento sanitário ou ambos, conforme definido em contrato.
Durante a execução, a concessionária é fiscalizada por órgãos reguladores, que acompanham indicadores de qualidade, cumprimento de metas e aplicação das tarifas. O poder concedente mantém a titularidade do serviço e pode intervir em situações previstas em lei.
Esse modelo busca viabilizar a expansão do saneamento básico por meio de investimentos privados, mantendo o controle público sobre o serviço.
Principais impactos da Lei de Concessões para empresas de saneamento
A aplicação da Lei de Concessões gera efeitos diretos na atuação das companhias de saneamento. Esses impactos podem ser observados em diferentes dimensões.
Entre os principais, destacam-se:
- maior previsibilidade contratual, com regras claras sobre prazos, revisões e extinção;
- necessidade de planejamento financeiro de longo prazo, alinhado ao contrato;
- exigência de cumprimento de metas de universalização e qualidade;
- ampliação das responsabilidades relacionadas à transparência e à prestação de informações;
- relação mais estruturada com agências reguladoras e poder concedente.
Para cada empresa de saneamento, esses pontos influenciam diretamente a gestão, a tomada de decisão e a organização interna.
Desafios enfrentados pelas empresas concessionárias
Apesar dos avanços, o regime de concessões também apresenta desafios para as empresas que atuam no setor de saneamento. Esses pontos influenciam a gestão dos contratos ao longo de sua execução.
Entre os principais desafios, podem ser citados:
- adequação às exigências regulatórias e à produção constante de informações;
- necessidade de investimentos elevados, especialmente em áreas com menor cobertura;
- gestão do equilíbrio econômico-financeiro ao longo de contratos extensos;
- articulação com diferentes entes públicos e instâncias reguladoras;
- comunicação com a população usuária sobre tarifas, obras e prazos.
Esses desafios evidenciam a relevância de processos estruturados, controle documental e acompanhamento contínuo das obrigações contratuais.
Conclusão
A Lei de Concessões consolidou um modelo de delegação de serviços públicos que permanece aplicável quase três décadas após sua publicação. Ao longo do tempo, ela passou a dialogar com outras normas, ampliando as possibilidades de atuação do setor privado e fortalecendo o papel regulador do Estado.
Para as companhias de saneamento, compreender o funcionamento da lei, suas atualizações e seus impactos práticos é parte do processo de adaptação a um ambiente regulatório mais exigente. Contratos bem geridos, informações organizadas e rotinas claras contribuem para o cumprimento das obrigações e para a qualidade dos serviços prestados.
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