A gestão dos recursos hídricos é uma responsabilidade compartilhada entre o poder público e a sociedade, conforme previsto na Política Nacional de Recursos Hídricos. No Brasil, o modelo de governança que organiza essa gestão é o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH).
Esse sistema tem como objetivo promover o uso racional da água, garantir sua disponibilidade em quantidade e qualidade adequadas e integrar diferentes políticas públicas, como abastecimento, irrigação, energia e saneamento.
Com o avanço da universalização do saneamento, o papel do SINGREH torna-se ainda mais relevante, pois a expansão dos serviços exige segurança na oferta de água.
Neste artigo, explicamos o que é o SINGREH, como ele funciona, quais são seus instrumentos de gestão e de que forma se relaciona com as empresas de saneamento que atuam em todo o país.
O que é o SINGREH (Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos)?
O SINGREH (Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos) é o conjunto de órgãos, entidades e instrumentos criados para planejar, coordenar e implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos no Brasil, de forma descentralizada e participativa.
O sistema tem como objetivo principal garantir o uso sustentável da água, conciliando os interesses de diferentes usuários e regiões. Ele foi concebido para permitir que a gestão da água seja feita de maneira integrada entre União, estados, municípios e sociedade civil.
Na prática, o SINGREH é o espaço institucional onde se discutem as prioridades, os planos e as regras de uso dos recursos hídricos. Ele articula políticas públicas, regula o acesso à água e define mecanismos para preservar a quantidade e a qualidade dos mananciais.
Base legal do SINGREH (Lei nº 9.433/1997)
A criação do SINGREH aconteceu por meio da Lei nº 9.433/1997, conhecida como Lei das Águas, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos.
Essa legislação foi um marco ao reconhecer a água como um bem de domínio público e de valor econômico, cujo uso deve ser cobrado e regulado de forma responsável.
A lei define que a gestão deve ser descentralizada, participativa e integrada, com o envolvimento do poder público, dos usuários e das comunidades locais.
Essa estrutura busca conciliar diferentes interesses, como abastecimento, agricultura, indústria e geração de energia, sejam conciliados em torno de um objetivo comum: o uso sustentável da água.
A partir dessa base legal, foram criados os comitês de bacias hidrográficas, os conselhos de recursos hídricos e os instrumentos de planejamento que sustentam o funcionamento do sistema.
Objetivos do sistema
O SINGREH foi criado para garantir que a água seja usada de forma equilibrada e sustentável em todo o território nacional. Entre seus principais objetivos, destacam-se:
- Assegurar água em quantidade e qualidade adequadas para os diferentes usos: o sistema busca garantir o abastecimento para consumo humano, atividades econômicas e manutenção dos ecossistemas;
- Promover o uso racional e integrado dos recursos hídricos: ao integrar políticas públicas e evitar conflitos entre setores e regiões;
- Prevenir e reduzir impactos de eventos críticos, como secas e enchentes: ao fortalecer ações de segurança hídrica;
- Incentivar a participação social na gestão da água: com o envolvimento de usuários, poder público e sociedade civil nos processos decisórios;
- Fomentar a articulação entre União, estados e municípios: ao promover uma governança cooperativa.
Como o SINGREH é estruturado?
A estrutura do SINGREH foi desenhada para garantir descentralização e participação em todas as etapas da gestão da água. Ela é composta por diferentes instâncias e entidades que atuam de forma integrada.
O sistema inclui:
- Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH): órgão máximo deliberativo do sistema, responsável por formular diretrizes e políticas nacionais para o setor;
- Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA): instituição executiva que implementa as políticas, regula o uso da água e apoia a elaboração de planos de bacia;
- Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos: órgãos que adaptam as diretrizes nacionais à realidade de cada estado;
- Comitês de Bacias Hidrográficas: instâncias locais e regionais de gestão, onde ocorre a participação direta de representantes da sociedade, empresas e governos;
- Órgãos dos poderes públicos federal, estadual e municipal: que atuam em atividades relacionadas à gestão da água e ao saneamento.
Essa estrutura garante que as decisões sobre o uso dos recursos hídricos não sejam tomadas apenas em nível central, mas também de forma compartilhada com quem está mais próximo das bacias e mananciais.

Principais instrumentos de gestão do SINGREH
Os instrumentos de gestão são ferramentas práticas que permitem o funcionamento do SINGREH e a aplicação da Política Nacional de Recursos Hídricos. Eles orientam o planejamento, o controle e a avaliação do uso da água em todo o país.
- Planos de Recursos Hídricos: estabelecem o diagnóstico da situação das bacias e definem metas de preservação e uso. Servem como base para o planejamento integrado com as políticas de saneamento e de desenvolvimento urbano;
- Enquadramento dos corpos d’água: classifica os cursos de água conforme seus usos predominantes, como abastecimento, irrigação ou recreação. Essa classificação orienta as metas de qualidade da água;
- Outorga de direito de uso da água: autoriza o uso da água por determinado tempo e finalidade, prevenindo conflitos e garantindo o uso equitativo entre os usuários;
- Cobrança pelo uso dos recursos hídricos: estabelece um valor econômico para o uso da água, incentivando o consumo racional e financiando ações de gestão e preservação;
- Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH): reúne dados sobre disponibilidade, qualidade e uso da água, servindo de apoio para decisões técnicas e políticas.
Como o SINGREH se relaciona com as empresas de saneamento
O SINGREH tem impacto direto sobre a atuação de cada empresa de saneamento no país, uma vez que as companhias dependem da disponibilidade e da qualidade dos recursos hídricos para garantir a continuidade dos serviços de abastecimento e tratamento.
Por meio dos planos de recursos hídricos e das outorgas de uso, as empresas obtêm segurança jurídica e operacional para captar, tratar e distribuir água.
Além disso, o SINGREH incentiva práticas de gestão integrada, ao conectar o planejamento das companhias com as políticas públicas voltadas à universalização do saneamento. Essa integração é ainda mais relevante em regiões onde há conflitos de uso, escassez ou degradação ambiental.
Outro ponto importante é o papel das empresas nas discussões dos comitês de bacia hidrográfica. Como usuárias diretas dos recursos hídricos, elas participam da formulação de metas e ações para garantir a preservação dos mananciais e o equilíbrio entre demanda e disponibilidade.
O SINGREH também contribui para o avanço do saneamento no Brasil, especialmente com o fortalecimento da governança e a melhoria do planejamento setorial. Isso inclui a integração com o saneamento rural, com o objetivo de ampliar o acesso ao abastecimento de água potável e à coleta e tratamento de esgotos em áreas rurais e remotas.
A partir dessa cooperação, as companhias de saneamento conseguem planejar investimentos de forma mais eficiente, reduzir riscos de escassez e assegurar a sustentabilidade de seus serviços.
Conclusão
O SINGREH representa uma das principais estruturas de governança ambiental e hídrica do Brasil. Ele garante que o uso da água seja orientado por princípios de sustentabilidade, participação e eficiência, permitindo que diferentes setores possam atuar de forma coordenada.
As companhias de saneamento devem compreender o funcionamento do sistema para planejar captações, operar de maneira integrada e participar das decisões que afetam os recursos hídricos de suas regiões.
A modernização da gestão pública e a digitalização de processos também fortalecem essa integração. Automatizar tarefas e aprimorar a gestão interna ajuda as instituições a acompanhar metas e indicadores com mais eficiência.
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